O MÁRMORE E A MURTA


INTRODUÇÃO

Há milênios existe um fluxo humano constante entre o planalto paulista e o litoral, desafiando a muralha de granito que conhecemos por Serra do Mar. Os primeiros foram os Sambaquianos, povo misterioso da pré-história brasileira que desceu as montanhas em busca de moluscos. Depois vieram os Tupis-Guaranis e sua rede impressionante de caminhos que ligava esse mesmo litoral a terras longínquas além dos Andes. Estes mesmos caminhos foram posteriormente trilhados pelos conquistadores ibéricos, os jesuítas e os Bandeirantes. Finalmente, no conforto das auto-estradas de hoje, os paulistanos de férias, assim como nossos ancestrais de milhares de anos atrás, ainda descem a serra atrás de frutos do mar.

Pouco se sabe sobre essas rotas, já que a história oficial do Brasil até hoje é muito centrada nos feitos dos colonizadores. Segundo o mito, os Bandeirantes teriam desbravado o interior no país, até então selvagem e desconectado.  Mas a verdade é que, muito antes dos europeus chegarem aqui, já existia uma comunicação inter-continental entre as diversas culturas ameríndias e o principal duto dessa integração era o lendário Caminho do Peabiru, que ligava o litoral sul do Brasil com o Peru, também chamado de Caminho de São Tomé pelos jesuítas. Os europeus aprenderam esses trajetos com os nativos, declararam seus e fixaram a própria interpretação heróico-religiosa (alô monumento às Bandeiras!). Essa versão sempre foi contestada por estudiosos mais sérios, mas foi apenas nas últimas décadas que houve um esforço coletivo para tentar compreender a perspectiva indígena e re-escrever a narrativa da ocupação do território americano. 

Entretanto, enquanto os historiadores se debruçam sobre documentos tentando re-interpretar estes fluxos espaciais, o que um fotógrafo pode fazer? O primeiro passo é sair do carro que nos prende a um curso pré-determinado e olhar. ao redor. O que existe hoje nesse caminho milenar? Que traços visíveis permanecem desse percurso? Quem hoje habita estes locais de histórias imemoriais?


O PROJETO

A proposta é uma caminhada fotográfica de cinco dias a partir do coração da cidade de São Paulo — o centro da ancestral aldeia de Piratininga que deu origem à nossa metrópole e onde hoje está o prédio do Banco do Brasil na Sé — até a localização original do Porto das Naus em São Vicente: o mais antigo porto alfandegário do país, fundado por Martim Afonso de Sousa. O trajeto sugerido é uma aproximação histórica do ramal local do Caminho do Peabiru. O trecho, também chamado de “Trilha dos Tupiniquins”, foi a primeira via de conexão entre o Planalto Paulista e o litoral Vicentino, de traçado muito mais antigo do que a nossa colonização e provavelmente anterior aos próprios Tupiniquim. 

O percurso, de aproximadamente 100 quilômetros, vai partir da Sé e cruzar Cambuci, Moóca, Vila Prudente, São Lucas, Sapopemba, Santo André, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. A partir daí sai da área urbana e depois de alguns quilômetros de estrada chega em Paranapiacaba para então descer a Serra do Mar por uma trilha selvagem no meio da Mata Atlântica ao longo do leito do Rio Mogi até desembocar na altura do complexo siderúrgico da Usiminas. Continua pela cidade de Cubatão, cruzando o porto Santos e atravessando o centro de São Vicente até Japuí, onde se encontrava o atracadouro colonial do século XVI. De arranha-céus a palafitas, de selvas a usinas de aço, de topo de serra a beira de mar, o caminho é um corte longitudinal que expõe várias camadas históricas, sociais e ecológicas de São Paulo.

O objetivo dessa iniciativa é evocar a experiência espacial dos nossos ancestrais e contrastá-la com imagens da vida atual no mesmo território. É essencialmente um trabalho de ficção histórica, inspirado em obras literárias, textos de época e fotografia de rua. Essa é a primeira expedição ao longo da Trilha dos Tupiniquins, com a finalidade de cobrir todo o trajeto. É provável que outras incursões localizadas venham depois para enriquecer certos pontos da narrativa visual. A expectativa é de que o trabalho desenvolvido se torne um livro e uma exposição unindo a história antiga de São Paulo com as fotos contemporâneas do percurso.

Em termos estéticos a caminhada segue no rastro de consagrados fotógrafos viajantes como Josef Kouldelka, Sergio Larrain, Gustavo Minas e Jason Eskenazi. Este último é grande inspiração através do seu último livro “Black Garden”, uma meditação sobre vestígios culturais da grécia clássica na paisagem contemporânea dos EUA e o Oriente Médio.

A pesquisa principal que definiu o itinerário da caminhada é “O Peabiru: uma trilha indígena cruzando São Paulo” de Daniel Issa Golçaves. Concluída em 1998 ainda é, de longe, a mais detalhada a respeito do traçado da trilha perdida. Golçalves foi consultado por Gui Marcondes e o ajudou a decidir trajeto a ser percorrido. Foi mantido o curso da Trilha dos Tupiniquins mais aceita até hoje.

Porém, a proposta não bebe só em pesquisas históricas e documentos antigos. Como exemplo de ficcionalização histórica “A Primeira História do Mundo” de Alberto Mussa é muito importante nessa pesquisa. O livro mistura dados reais com interpretação investigativa ao modo de uma novela de mistério, tentando desvendar aquilo que não é possível de ser recuperado. Outro autor de referência na concepção do projeto foi W.G. Sebald que no romance “Os Anéis de Saturno” narra uma caminhada pelo interior da Inglaterra onde recorda fatos históricos, questões filosóficas e outras curiosidades, suscitados pela experiência da própria viagem.

Como o assunto aqui é contar histórias, tanto no sentido da ciência humana quanto da arte narrativa, é importante introduzir alguns dos temas principais que vão orientar a leitura do caminho a ser trilhado. Nas próximas páginas segue um relato resumido do que foi estudado para este projeto. Aos curiosos para saber mais sobre a memória deste pedaço de terra ao redor da Serra do Mar, a bibliografia ao final do documento é um bom começo. Boa viagem.


PESQUISA

O MÁRMORE E A MURTA

Quando os jesuítas chegaram no Brasil havia uma onda de otimismo. Inicialmente os locais se mostraram muito curiosos e receptivos ao ensinamentos cristãos. A lua de mel durou pouco. Algumas décadas depois o clima era de desânimo e muitos missionários já não confiavam no seu poder de persuasão. Em seu “Sermão do Espírito Santo”, Padre Antônio Vieira elabora a respeito da dificuldade da fixação da doutrina cristã na alma indígena. O problema não era tanto aceitar a conversão, mas o compromisso dos “brasís” com a catequese. Os nativos recebiam com entusiasmo a palavra de Jesus Cristo num dia porém no outro já voltavam a caminhar nus, a farrear com suas várias mulheres e a petiscar a carne dos inimigos vencidos. Para dar sentido a este quadro caótico, Vieira criou uma das mais belas e terríveis metáforas da alma do nosso povo:

“A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve. Se deixa o jardineiro de assistir, em quatro dias sai um ramo que lhe atravessa os olhos, sai outro que lhe descompõe as orelhas, saem dois que de cinco dedos lhe fazem sete, e o que pouco antes era homem, já é uma confusão verde de murtas. Eis aqui a diferença que há entre umas nações e outras na doutrina da fé. Há umas nações naturalmente duras, tenazes e constantes, as quais dificultosamente recebem a fé e deixam os erros de seus antepassados; resistem com as armas, duvidam com o entendimento, repugnam com a vontade, cerram-se, teimam, argumentam, replicam, dão grande trabalho até se renderem; mas, uma vez rendidos, uma vez que receberam a fé, ficam nela firmes e constantes, como estátuas de mármore: não é necessário trabalhar mais com elas. Há outras nações, pelo contrário — e estas são as do Brasil —, que recebem tudo o que lhes ensinam, com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam à bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram.”

Vieira foi um gênio da oratória, o “imperador da língua portuguesa” segundo Fernando Pessoa. Por outro lado, é espantosa a cegueira dos jesuítas a respeito do que antropólogo Eduardo Viveiros de Castro chama de “alma selvagem”, no seu ensaio também intitulado “O Mármore e A Murta”. Até hoje, por acreditar que é impossível reconciliar essas duas origens, somos amaldiçoados a viver eternamente como a estátua de murta, meio desconjuntada, sem poder atingir a pureza da forma clássica e nem permitir que nossos brotos rebeldes cresçam ao sol.

SUMÉ / SÃO TOMÉ

Projetos imperiais normalmente vem acompanhados de imagens proféticas, talvez (ou exatamente) para justificar a suprema violência imposta sobre os povos subjugados. No caso de Portugal, a partir de final do século XV se desenvolveu um interesse especial ao redor de São Tomé. O apóstolo Thomás foi, supostamente, o pregador que divulgou a palavra do Senhor nas terras mais longínquas e é considerado fundador do Cristianismo na Ásia. Faz sentido então que o Império Lusitano se identificasse com sua figura e que os Jesuítas também vissem sinais da passagem de São Tomé por terras brasileiras; um feito e tanto para um peregrino solitário portando apenas sandalhas de couro. Mas assuntos mundanos como logística de transporte eram menos importantes para a cultura da época do que as engenhosas associações que a oratória dos Jesuítas era capaz de inventar.

Como não poderia deixar de ser, essa criação colonial foi mais uma apropriação do patrimônio dos locais. Logo nos primeiros contatos, os indígenas relatavam histórias de uma entidade mística civilizatória chamada Sumé (ou Pay Zumé, ou ainda Pay Tumé no Peru) que teria lhes apresentado a mandioca, ensinado a agricultura e, mais importante aos conquistadores, aberto caminhos muito longos que conectavam a costa do Brasil às terras de um tal Rei Branco, sentado numa montanha de prata (mais tarde identificada como Potosí, na atual Bolívia). Do encontro entre ganância e fanatismo nasceu um interesse dobrado na figura de Sumé: para os colonos ele seria a porta de entrada para as riquezas do interior. Para os Jesuítas, que logo perceberam a similaridade da pronúncia do nome da entidade Tupi com “Tomé”, seria a prova de que o apóstolo chegou na América. Esse fato, em si, tinha a dupla função de reforçar o divino desígnio do projeto de catequese e incluir os indígenas na cosmologia cristã europeia baseada em superioridade racial. No já citado “Sermão do Espírito Santo” o Padre Antônio Vieira explica que São Tomé, aquele que só acredita vendo, cutucou as chagas de Cristo para se convencer da ressurreição e foi condenado por tal impropério a pregar no fim de mundo mais hostil de que se tinha conhecimento: O Brasil.

O PEABIRU E A TRILHA DOS TUPINIQUINS

O caminho criado por São Tomé, o Sumé dos Tupi-Guarani, era não outro que o Peabiru, o conjunto de trilhas pré-cabralinas que ligava o litoral sul do Brasil com o Peru. Estudos recentes apontam que a autoria da trilha precede a presença desse povo na região e ela teria sido construída pelo povo Jê. Tupi-Guarani e Macro-Jê são os dois troncos linguísticos primários dos povos indígenas brasileiros e os últimos povoaram o interior do atual sul do país antes dos Tupi que foram posteriormente expandindo seu território em batalhas contra os Jê. No momento da colonização portuguesa boa parte do atual estado de São Paulo era controlado pelos Tupi-Guarani. É possível imaginar que isso explique a atribuição do Peabiru a Sumé, uma vez que o caminho já existia antes de sua entrada no território, os Tupi necessitavam de uma história para sua origem, assim como os portugueses precisaram de São Tomé para entendê-la.

Alguns historiadores acreditam que em certos trechos a trilha chegava a ser pavimentada com pedra e documentos de época mencionam um caminho de oito palmos de largura coberto por umvvva certa erva rasteira mágica que resistia até o fogo e mantinha o contorno do caminho impedindo outras plantas maiores de crescer no lugar. Outros, como Sérgio Buarque de Holanda, sequer pensam que o Peabiru foi uma única via e sim um conjunto de caminhos e instruções de movimentação pelo território sul-americano. Mas é difícil confirmar essas teorias porque o avanço da agricultura no interior eliminou a maioria dos vestígios do território antigo.

Independente de origem e aspecto, o Caminho do Peabiru partia de (ou terminava em) Cusco, passava por Potosí, Assunção do Paraguai e na região do Guayrá (interior do Paraná) se dividia em três ramais que alçavam a costa Brasileira. O primeiro chegava em Santa Catarina, próximo a Florianópolis, o do meio encontrava o mar em Cananéia e o mais ao norte descia a Serra do Mar até se deparar com o mangue costeiro da atual Cubatão. Esse último ramal foi chamado de Trilha dos Tupiniquins pelos portugueses que aprenderam seu percurso com os indígenas locais. 

Imediatamente após o descobrimento já havia relatos de enormes tesouros no interior do continente Sul-Americano passados aos colonizadores por nativos que se comunicavam ao longo do Peabiru. Loucos aventureiros se atiraram por terra em direção a miragens como o “Eldorado”, o “Paititi” e outras lendárias cidades perdidas que fascinam até hoje. Pouquíssimos voltaram contudo a recorrência das histórias e a presença de um ou outro espólio de prata Inca que por casualidade acabou em mãos de algum degredado foi o suficiente para impulsionar a fofoca até a matriz. A excitação era tanta que depois de trinta anos de virtual abandono a Coroa portuguesa resolveu investir recursos públicos no Brasil pela primeira vez com a expedição de Martim Afonso de Sousa. A ideia era chegar às riquesas do interior por via fluvial, desbravando a bacia do Rio da Prata. O plano deveria ser mantido sob sigilo porque a região ficava além do tratado de Tordesilhas. Os espanhóis acabaram descobrindo, só que tarde, quando a esquadra lusa já estava em alto mar. No fim o projeto afundou, não por questões diplomáticas, mas ao naufragar a nau capitânia nas águas do Prata logo em sua foz. Para não perder viagem, Martim Afonso de Souza deu meia volta e decidiu atracar no litoral paulista, no que fundou a primeira cidade do Brasil em 1532. A criação de São Vicente está diretamente ligada ao Peabiru. A pequena população de portugueses que já habitava a região sabia pelos índios da existência do caminho e, ao tomar conta disso, Martim Afonso de Sousa achou pertinente criar ali uma base para futuras explorações por terra. Os jesuítas vieram na sequência, com planos bem diferentes para aquelas entradas. Os religiosos sonhavam em usar estas trilhas como eixo de expansão da catequese no interior da América do Sul. O intercâmbio ao longo do que os padres chamavam de “Caminho de São Tomé” era tão intenso que em 1560 o governador geral do Brasil Mem de Sá decidiu proibir seu percurso, sob forte protesto dos jesuítas, por medo da influência dos espanhóis que faziam avanços ao longo de sua extensão. O fechamento precoce do caminho é o maior desafio para se estabelecer sua localização, dependendo dos poucos relatos contemporâneos.

Dos lusitanos exilados o que mais conhecia a Trilha dos Tupiniquins era João Ramalho, figura quase mítica que, entre outras coisas, criou Santo André da Borda do Campo em 1550. A enigmática vila perdida plantada na beira da trilha durou poucos anos por sofrer com a falta de abastecimento de água e com os constantes ataques de índios inimigos. Em 1560 a Coroa ordenou a relocação de toda sua população, uma dúzia de famílias, para as imediações da aldeia de Piratininga, no que São Paulo foi oficialmente fundada. A localização exata dessa precária ancestral da atual megalópole é desconhecida até hoje. Sabe-se vagamente que ficou dentro da área que hoje vai do grande ABC até Ribeirão Pires. O planalto de Piratininga para onde a vila foi transportada já era habitado pela aldeia do índio Tibiriçá, sogro de João Ramalho, e por uma pequena casa jesuítica onde hoje é o Pátio do Colégio, na Sé. Este entroncamento já era conhecido dos indígenas justamente por fazer parte do Peabiru. Dali, em direção oeste, o caminho atravessava o córrego do Anhangabaú e seguia pela atual Rua da Consolação, Bela Cintra, Rebouças, Rua dos Pinheiros, Rua Butantã e nesse ponto atravessava o Rio Pinheiros que antes da retificação se tornava estreito e possível de atravessar a pé. Depois disso a via se perdia no sertão. Invertendo a direção a partir da Sé fica o percurso da Trilha dos Tupiniquins que este projeto vai percorrer em direção ao mar, contrário ao eixo da colonização.

Finalmente, neste trecho da costa encontramos uma camada ainda mais antiga que o Peabiru, as migrações dos Sambaquianos entre a serra e o litoral. Esse povo pré-histórico paulista do qual sabemos muito pouco viveu entre 8000 e 1500 anos atrás. Construíram colinas das conchas dos mariscos dos quais se alimentavam, chamadas Sambaquis, onde enterravam seus mortos. Eram exímios pescadores e chegavam a abater tubarões brancos e fazer colares de seus enormes dentes. Provavelmente foram aniquilados pelos ancestrais dos Tupi-Guarani no ciclo histórico interminável de invasões e conquistas territoriais.

O que resta é saber porque tanta atividade humana foi concentrada ao redor de uma barreira tão espantosa e intransponível como a Serra do Mar. É natural se atribuir fluxos históricos a necessidades práticas de sobrevivência como abrigo e alimentação, porém ao olhar a gigante muralha coberta de selva é quase impossível não evocar outro sentimento, o de sublime: “Uma grandeza além de qualquer possibilidade de cálculo, medida ou imitação”. O Peabiru também não tinha grande função prática, como comércio ou defesa. Talvez parte do que se perdeu com o tempo não foi só o traçado desses caminhos mas a vontade de circular pelo mundo sem objetivo imediato. E quem sabe este projeto não seja animado pelo mesmo impulso ancestral de exploração.